Goethe expandiu e ressignificou o conceito de pacto demoníaco através de sua obra Fausto, escrita durante mais de sessenta anos pelo autor, em dois volumes. O primeiro volume foi publicado em 1808 e o segundo, postumamente, em 1832. Estas datas são importantes porque o autor anteviu uma realidade financeira que esclarece e descreve o cenário atual - a vida insiste em imitar a arte.
Enquanto a tradição alemã na época de Goethe falava do pacto como uma venda da alma de um indivíduo chamado Henrique Fausto para uma pretensa entidade maligna, conceito bastante comum até hoje, o velho poeta alemão propôs outros sentidos e lançou um novo olhar sobre o tema. Nas duas cenas iniciais do segundo volume da tragédia fáustica, o "diabo" propõe uma artimanha econômica: a impressão de notas de papel assinadas pelo Imperador e dando direito ao portador da posse de tesouros futuros que ainda estavam enterrados no solo e ainda não haviam sido escavados. O dinheiro fiduciário (Fiat Money) já existia há muito tempo para suprir uma característica do dinheiro, servir como valor de troca, só que a sugestão mefistofélica era usar o esse dinheiro de papel sem um lastro real e inundar o mercado com dinheiro criado do "nada". Em 1971, com a suspensão do padrão ouro pelo presidente Nixon, poderíamos contar esse mesmo fato apenas mudando o nome das personagens.
Embora seja conhecido pelo seu trabalho como autor de livros, Goethe contribui ativamente como "ministro da economia" no ducado de Weimar: saneando dívidas, reformando impostos e impulsionando a indústria local. Talvez através dessa experiência prática, ele tenha concluído o perigo do dinheiro fiduciário sem controle: a desvalorização da moeda e a inflação. A mágica da impressão é um ato de alquimia financeira diabólica. Avançando para o ano de 2009, vemos nascer uma ideia criada, filosoficamente, como uma resposta a este cenário mefistofélico: o bitcoin.
O pacto agora é sugerido através de um paper, escrito por um autor anônimo que assina como Satoshi Nakamoto. A ideia é criar um dinheiro onde não existam a impressão de dinheiro e sua consequente inflação. O pacto de Mefistófeles agora é feito com algoritmos de criptografia que garantem o funcionamento do sistema. O Bitcoin foi criado, filosoficamente, como uma resposta a esse cenário mefistofélico. Goethe descreveu a transição do ouro para o papel-moeda como um pacto faustiano: ganha-se liquidez e crescimento imediato, mas entrega-se a alma (a estabilidade real e a verdade econômica) ao diabo (inflação e manipulação). O Bitcoin posiciona-se como o retorno à "verdade" ou ao "ouro digital", impedindo que Mefistófeles (ou um Banco Central) imprima riqueza falsa.