No diálogo Fédon, que narra os últimos momentos da vida de Sócrates antes de tomar a cicuta, Platão usa uma expressão marítima comum da Grécia Antiga, deutero plous (segunda navegação) para marcar uma transição fundamental da história da filosofia: a conquista do mundo inteligível. Platão transformou um ditado popular entre os marinheiros gregos em uma poderosa metáfora para explicar a filosofia.
Na linguagem náutica, a segunda navegação se dá quando se perdem os referenciais da primeira navegação: a vista da terra de onde se partiu e o vento que impulsionava as velas. Agora, em alto mar, os referenciais de localização e de movimento são de outra natureza e enquanto a primeira navegação é mais fácil e clara, a segunda navegação exige mais conhecimento e mais esforço para mover o barco, não há mais referências visíveis nem ajuda da natureza. Navegar agora é outra realidade.
Na história da filosofia (ocidental), a Grécia clássica sucede as escolas pré-socráticas, últimas herdeiras de uma realidade mágica e "naturalista". Agora, ou melhor dizendo, na época de Sócrates e Platão, a navegação exige remos para impulsionar, exige um capitão para o navio, exige formação náutica dos marinheiros e conhecimentos do céu e do mar. Giovanni Reale foi um filósofo italiano contemporâneo responsável por resgatar a importância central dessa metáfora na leitura moderna de Platão, argumentando que sem entender a "segunda navegação", não se entende a criação da metafísica.
A ontologia proposta por Platão no mito da caverna aproxima a segunda navegação do uso da dialética para chegar no mundo inteligível, para sair da caverna. Não há mais estímulos sensoriais da caverna e a busca é pela luz que projeta as imagens e os sons; precisamos sair da caverna seguros, sem ficar cegos pela luz ou afogados pelas ondas do alto mar. A bússola é interior e o caminho é apresentado pelo mestre do do barco, mirando nas estrelas. O que nos cabe fazer é remar.
Estamos agora em alto mar, com águas profundas, sujeitos a tempestades de monção e nos movendo a partir de conhecimentos que vão nos dizer aonde estamos e para onde queremos ir. Os marinheiros lembram outro ditado que ajuda a entender a viagem: "mares calmos não fazem bons marinheiros." Para navegar nestes mares agitados e chegar ao porto que desejamos, a chance que temos é reconhecer e ouvir os comandos de Platão, o capitão da nossa nave.