Friedrich Nietzsche definiu o niilismo de maneira perfeita como a falta de ideais, o desaparecimento dos valores e a ausência de Deus. O niilismo, tão bem caracterizado pela literatura russa, é uma grave doença que se instalou no homem moderno e gerou a apatia profunda do homem atual onde nada mais importa. O ser humano está órfão: não se reconhece mais, não consegue conviver com outros e está sem Deus.
Do latim Nihil ("nada"), o niilismo é uma filosofia que nega sentido, propósito ou valor intrínseco à vida e ao universo, e se manifesta como um ceticismo radical que rejeita valores morais, religiosos e sociais estabelecidos, podendo levar ao pessimismo ou à busca por novos valores. Trata-se de uma "doença da alma", é o sintoma mais agudo de uma era. É o momento em que a humanidade olha para o céu (ou para o mundo das Ideias de Platão) e não vê nada além de espaço vazio. O homem se sente órfão do universo.
A autópsia do niilismo feita por Nietzsche foi reforçada pelo contato póstumo com obra de Dostoiévski. Ele viu em obras como Memórias do Subsolo a descrição perfeita do ressentimento, da inveja e da mesquinhez que se escondem por trás da moralidade comum. Ambos entenderam que, sem um centro espiritual, o ser humano seria capaz de atrocidades ou cairia numa apatia mortal. Apesar dessa convergência inicial, os caminhos se separaram quando se olha para o remédio que cada pensador recomendava. Para Nietzsche a doença moral do niilismo seria superada pelo preenchimento do vazio deixado pela ausência de Deus, e preenchida por novos valores criados pelo novo super-homem (Übermensch), tornando-se ele mesmo um criador de valores. Já para Dostoiévski, o niilismo acontece quando o intelecto humano tenta se colocar acima da ordem divina. Há outras versões do niilismo na literatura russa (Tolstói e Turgueniev também abordam o niilismo) e se formos ecléticos, herdaremos a vontade super humana de Nietzsche, a compaixão imensa de Dostoiévski, a impossibilidade uma vida sem beleza de Turgueniev e a simplicidade proposta por Tolstói. Juntas, essas respostas podem devolver o sentido à uma humanidade vazia e ilustrar a frase de Oscar Wilde: "A vida imita a arte."
Outro remédio, receitado pelo pensador italiano Giovanni Reale, é a sabedoria dos antigos. Devem ter existido niilistas nos tempos antigos também, mas as ideias que apontavam para um sentido maior para a vida estavam muito mais presentes nas civilização antigas que no mundo atual. Para citar apenas um remédio, Reale resgata do diaĺogo platônico Timeu, a ideia de que o Universo foi criado a partir de um Caos desordenado e indefinido, ao qual foi aplicado a forma (ordem divina) e criou-se o Cosmos à luz de Théos. É um remédio potente e agudo, com uma bula bem clara e transparente: a vida é um movimento em busca da ordem. A vida tem sentido, do micro ao macro, tudo tem um porquê e um papel para cumprir na ordem cósmica. O sentido da vida não é algo que se cria do nada, é algo que se descobre. Como nos lembra o psiquiatra e sobrevivente dos campos de concetração, Viktor Frankl, a principal motivação humana é a Vontade de Sentido: crie um trabalho, pratique uma ação, ajude alguém, contemple a natureza ou uma obra de arte, ame com vontade e descubra que, se o sofrimento é inevitável, a sua capacidade de viver com sentido é mais poderosa ainda.