A ver destinado
à torre preposto
vigia jurado
o mundo é meu gosto.
Contemplo distante
e próximo observo
o luar no levante
o bosque, a ave e o cervo.
Assim vejo em tudo
Beleza sem fim,
e como me agrada,
agrado-me a mim.
Felizes meus olhos,
o que heis percebido,
lá seja o que for,
tão belo tem sido!
Linceu era um dos tripulantes da nave Argo, da antiga mitologia grega de Jasão e os Argonautas, e que possuía o poder de uma visão privilegiada. Sua função era ver através de objetos sólidos, enxergar a distâncias inacreditáveis e servir como preposto e olheiro da nave. Não é necessário uma capacidade de visão acurada nem um super-poder para perceber a urgência da beleza e do resgate da capacidade de ver no mundo atual. Linceu, nascido para olhar, para contemplar a beleza, para perceber o mundo, está silencioso na torre; nossa nave viaja no escuro e a paisagem não agrada mais a ninguém. No Fausto, Goethe denuncia a torre silenciosa, o fruto consequente da nossa incapacidade de funcionar como bastião dos perigos eminentes do niilismo que ameaça nosso castelo.
O mundo segue operando seu “feísmo”, festeja sua incapacidade de abrir os olhos e se sacia com a altura epitelial de sua imaginação. Os estetas atuais, esquálidos na sua magreza cadavérica, louvam os restos que caem do banquete da tradição estética e aspiram um dia voltar a ocupar o lugar nesta mesa e se saciar de ambrosia. A ambição de Fausto alimentou o utilitarismo raso que expulsou a beleza e a contemplação estética do mundo.
Precisamos recuperar a capacidade de ver, de contemplar, de buscar a beleza de novo. Para começar a enxergar fora, primeiro precisamos recuperar a visão do que está dentro. Olhar com os olhos da alma e ir além do pacto mefistotélico; fazer a canto de Linceu ser ouvido de novo na torre.