Informações Bibliográficas

Os demônios, Fiódor Dostoiévski

Editora 34, 2013

704 páginas

Leitura Analítica

  1. O que o livro trata como um todo?

O livro relata as tensões e os conflitos, psicológicos principalmente, que envolvem o aparecimento de  doutrinas que o autor chama de os demônios em uma pequena cidade russa: o niilismo, o anarquismo destrutivo, o socialismo radical. O autor prenunciou a gênese da “mentalidade revolucionária” que eclodiu na Rússia algumas décadas depois. 

  1. O que exatamente está sendo dito e como?

A história contada no livro representa o conflito geracional entre a decadente aristocracia russa e a jovem rebeldia sem causa que ameaçava a Europa. Cada personagem representa uma das peças desse jogo: o niilista aristocrático (Nikolai Stavróguin), o  revolucionário oportunista (Piotr Stepanovich), o crente redentor (Ivan Chátov), o místico ateu e misógino (Alexei Kirillov), o intelectual ultrapassado e inofensivo (Stiepan Trofímovitch) e a rica proprietária de terras (Várvara Petrovna). 

A trama que compõe o livro foi inspirada em uma fato real: o assassinato do estudante Ivanov pelo grupo niilista de Sergei Nechayev.

  1. Qual é o julgamento que adotamos em relação às teses do livro?

Já foi dito em outras resenhas que o autor é um cartógrafo da psiquê humana e neste livro o diagnóstico é confirmado na psicologia política e através de suas “ficções”, Dostoiévski vai desvelando o que se passa no interior dos jovens revolucionários modernos. A quantidade de personagens, as cenas mais inesperadas, os temas que reconhecemos logo, tudo ilustra a psiquê humana. No caso específico deste livro, uma tese é sustentada: as doutrinas totalitárias que iriam dominar a cena na Europa em breve surgiram de uma profunda crise de psicologia política. A história confirmou Dostoiévski. 

  1. Qual a importância do livro?

Sem se deter na questão que hoje é uma polaridade bastante presente, a do revolucionário e do conservador, o livro sugere que o cenário político chegou ao estado atual, violento e extremista, pela fratura existente nos interior dos pretensos revolucionários que afirmavam um mundo perfeito utópico. A luta por este mundo idealizado, por esta “causa”, justificaria a violência e as mortes em nome de algo maior. Dostoiévski previu, antes de qualquer político, que o fanatismo político, tão presente hoje nos meios acadêmicos onde a juventude é maioria, era um desvio psicológico e espiritual. A arte explicando a vida.

Excertos

Em certa época andaram dizendo a nosso respeito na cidade que o nosso círculo era um antro de livre-pensamento, depravação e ateísmo; aliás, esse boato sempre existiu. Mas, enquanto isso, o que existia era uma divertida tagarelice liberal, a mais ingênua, singela e perfeitamente russa. O “liberalismo superior” e o “liberal superior”, ou seja, o liberal sem nenhum objetivo, só são possíveis na Rússia.
Nós pusemos coroas de louro em cabeças piolhentas.
Se queres vencer o mundo, vence a ti mesmo.
É, não pude me separar de forma imediata e profunda daquilo para que cresci desde pequeno, em que se aplicaram todos os encantos das minhas esperanças e todas as lágrimas do meu ódio… É difícil trocar de deuses.
Partindo da liberdade ilimitada, chego ao despotismo ilimitado.
Sou um velho ultrapassado, proclamo solenemente  que o espírito da vida continua soprando como antes e a força viva não se exauriu na nova geração. O entusiasmo da juventude de hoje é tão puro e luminoso quanto nos nossos tempos. Acontece apenas uma coisa: a mudança dos fins, a substituição de uma beleza por outra! Toda a dúvida  está apenas em saber:  o que é mais belo, Shakespeare ou um par de botas, Rafael ou o petróleo?
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