Se todas as ideias e conceitos tem que estar representados em uma língua para que possam ser comunicados, seja idealmente por uma palavra ou por uma expressão composta de várias palavras, o anglicismo do título deste texto exprime uma ideia com precisão: encontrar, fortuitamente, algo bem que melhor do que o motivo original da busca. Como exemplo, temos o um caso clássico de serendipidade na ciência: a descoberta da penicilina por Alexander Flemming, que ao estudar bactérias, e não antibióticos, teve sua placa contaminada por um fungo contaminou sua placa e mudou completamente o que foi encontrado. Mas o palco onde podemos encontrar mais exemplos abundantes de serendipidade é na literatura.

Vou contribuir com os meus dois centavos para esclarecer a serendipidade através de dois livros lidos recentemente. Inicialmente declaro que são temáticas que não me interessam e que eu nunca teria a oportunide de refletir se não fossem estes dois livros: o universo feminino da Inglaterra rural do século XVIII (Orgulho e Preconceito) e a superficialidade de um dândi inglês de Londres no século XIX (O Retrato de Dorian Gray). Apesar dos livros contarem enredos vividos na Inglaterra, as semelhanças terminam aí, são duas experiências literárias bem distintas.

As resenhas publicadas de cada livro descrevem bem cada um deles mas não permitem registrar a descoberta da aventura imaginária de acompanhar o enredo e os personagens de dois excelentes romances. No livro de Jane Austen, habilmente apresentado com um uso refinado do discurso indireto livre, descobre-se uma ponta de inveja de uma época onde o assunto mais corrente em reuniões sociais era os livros que estavam sendo lidos e a música que estava sendo executada ao piano. Perdemos essa aristocracia e demos lugar aos temas e informações continuamente comunicados pelas mídias digitais continuamente. A música tornou-se pano de fundo para as interações que nunca despertam uma reflexão sobre o que está sendo comunicado. Já no único romance do Oscar Wilde, tido como uma denúncia da falta de sentido e da superficialidade da burguesia inglesa do século XIX, narra-se através do núcleo principal do romance uma estória não muito diferente do niilismo atual e da falta de sentido e propósito para tudo. Só que uma olhar mais atento pode se maravilhar com uma resposta que é dada pelo autor: a arte é uma resposta para a vida. A arte é muito presente no livro mas para que essa afirmação continue verdadeira, temos que nos aproximar do que é arte de verdade e do que é vida.

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