Antibiblioteca

Uma das ideias mais célebres associadas a Umberto Eco, e popularizada pelo ensaísta Nassim Nicholas Taleb a partir dos escritos do autor, é o conceito de antibiblioteca. O nome pode levar a um engano, mas ele quis dizer que o valor de uma biblioteca reside justamente nos livros não lidos. Para a maioria das pessoas, o valor de uma biblioteca reside na quantidade de livros, ou troféus, já lidos.

"Livros lidos valem muito menos do que livros não lidos. Uma biblioteca deve conter tanto daquilo que você não sabe quanto seus meios financeiros permitirem."

Umberto Eco dividia as pessoas que conheciam a sua biblioteca em duas categorias distintas de acordo com a reação que tinham quando se deparavam com os mais de 30.000 exemplares de sua biblioteca pessoal:

  • O visitante comum: Pergunta surpreso: "Nossa, professor! O senhor leu todos estes livros?"
  • O visitante refinado: Compreende a verdadeira função do acervo e reconhece: "Esta não é apenas uma coleção de leituras passadas, mas uma ferramenta de consulta para o futuro."

Para a primeira pergunta, Eco ironizava com respostas bem-humoradas, como dizer que não lera nenhum daqueles, mas guardava-os para ler na semana seguinte.

Já ouvi alguém que dizia, com menos genialidade que Eco, que os livros de uma biblioteca são como remédios de uma farmácia. Você não tem que ter lido, ou tomado, todos. Mas quando você precisar daquele remédio específico, ele estar à mão pode fazer toda a diferença.

Memória Vegetal

Em seu livro de ensaios Não Conte com o Fim do Livro (escrito em parceria com Jean-Claude Carrière), Eco defende que o livro impresso é uma invenção perfeita, equiparável à roda, à tesoura ou ao martelo: uma ferramenta que não pode ser aprimorada em sua essência.

Ele definia a memória humana em três fases: a memória orgânica (o cérebro), a memória mineral (computadores e chips de silício) e a memória vegetal (o papel e os livros). A biblioteca, portanto, é a extensão física da memória coletiva da humanidade. So que recentemente um novo personagem começou a ganhar relevância e rivalizar com o tradicional livro de papel: os e-books.

Memória Mineral

Tenho um amigo que tinha como projeto chegar a ter uma biblioteca exclusivamente digital, que não tivesse nenhum livro físico. Segundo ele, seria ideal que todos os seus livros estivessem à mão e disponíveis em um Kindle que ele poderia carregar para qualquer lugar. Mas, no mercado brasileiro, pelo menos, a ideia de que o e-book substituiria completamente o livro físico ficou para trás; hoje, o setor vive sob a lógica da coexistência e complementariedade de formatos (modelo híbrido). De qualquer forma, eu sou parte do grupo que aprecia um livro físico.

O mercado de livros físicos continua sendo o carro-chefe do faturamento das editoras, o que reforça as vantagens da leitura de um livro em relação a um e-book: experiência sensorial, menor fadiga de tela, valor colecionável/estético na estante e maior retenção de atenção em leituras densas. Os e-books também oferecem algumas vantagens: preços mais acessíveis, portabilidade, leitura imediata e busca/grifos facilitados em dispositivos. Mas por enquanto o troféu continua com os livros físicos. Só que há um cenário onde os livros eletrônicos são imbatíveis: a manutenção de acervos cada vez mais numerosos, mantendo a eficácia na consulta e na localização de qualquer exemplar.

Sistema de Informação

A minha tentativa de obter o melhor dos dois mundos, o físico e o digital, foi desenvolver um aplicativo que pudesse copiar a eficiência do sistema de armazenamento de e-books e manter a minha biblioteca pessoal de livros físicos. Essa foi a gênese do projeto que é título deste artigo: o Estante.

Usando SDD (já falado aqui) e modelos de IA, foi desenvolvida um aplicação que está disponível no endereço estante.willy.dev.br. Ainda estou corrigindo os erros e alimentando o banco de dados com os mais de 600 livros da minha biblioteca pessoal, mas estou chegando um resultado bem satisfatório.

Este sistema resolve um problema da minha memória orgânica, que é a retenção dos livros que eu já possuo, e já aconteceu algumas vezes de encontrar livros repetidos na minha biblioteca, ou seja, comprei o mesmo livro novamente. Outra virtude desse sistema é permitir encontrar em que prateleira está localizado o livro, além de fazer pesquisas por autores, editoras, ISBNs e tags. O acervo está exposto publicamente,mas sua manutenção é autorizada apenas para o usuário administrador.

Enfim, este aplicativo publicado como um serviço virtual, é a minha homenagem aos livros para que eles continuem sendo uma fonte inesgotável de pesquisa.

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