A ideia começou como uma experiência pedagógica de desenvolvimento usando inteligência artificial. Queria ver como seriam as resenhas dos livros que eu publico por aqui geradas por modelos de inteligência generativa (LLM). Foi uma experiência longa, talvez pela impossibilidade de continuidade imediata, mas demonstra que o processo de gerar um resenha automática tem muito mais matizes que eu supunha. Ainda não cheguei numa solução definitiva, mas algumas etapas merecem ser detalhadas.
Seguindo o formato das resenhas que são publicadas aqui, a ideia era pedir para os modelos gerarem resenhas usando as perguntas sugeridas por Mortimer Adler no seu livro que fala da leitura. Desde as primeiras tentativas nunca houve problemas em relação a este formato e as resenhas geradas cumpriam perfeitamente o molde proposto para a resenha, o que demonstra que faz sentido resenhar um livro desta maneira. Só que houve surpresas (ou descobertas) a partir dessa especificação, e os resultados traziam além das perguntas respondidas, um conjunto de 15 regras propostas por Mortimer Adler. Parece que o autor nunca numerou essas regras formalmente e nem as dividiu em estágios, mas a partir do seu método, o modelo de IA gerou uma estrutura de regras dividas em estágios para cobrir a leitura analítica:
Estágio I — Estrutura (Regras 1–4)
- Classificar o livro por gênero e assunto
- Sintetizar a unidade do livro em 1–2 frases
- Enumerar as partes principais e sua organização
- Definir os problemas que o autor se propõe a resolver
Estágio II — Interpretação (Regras 5–8)
- Identificar os termos-chave e "entrar em acordo" com o autor
- Destacar as proposições fundamentais em frases-chave
- Construir os argumentos básicos do autor
- Determinar quais problemas foram resolvidos e quais não
Estágio III — Crítica (Regras 9–15)
- Não criticar sem compreender plenamente
- Discordar sem beligerância
- Dar razões para a crítica
- Mostrar onde o autor está desinformado
- Mostrar onde o autor está mal informado
- Mostrar onde o autor é ilógico
- Mostrar onde a análise está incompleta
Inicialmente o projeto que eu imaginava consistia de quatro respostas para as quatro perguntas da Leitura Analítica. Na primeira fase da especificação passada para os modelos gerarem o código, é feita uma pesquisa sobre o assunto que será abordado, alimentando o contexto que vai ser aplicado. Nesta pesquisa o modelo acabou encontrando estas regras e o resultado é que uma resenha gerada assim nunca tem menos de 700 ou 800 linhas. As respostas são bem coerentes e acabaram trazendo uma perspectiva insuspeitada para a resenha. Esse é o primeiro ponto que eu quero enfatizar neste ensaio, a inteligência artificial como um assistente muito competente mas que precisa ser guiado.
Recentemente, um grande cientista da computação, Martin Fowler, detectou um problema muito similar a este que eu relatei: um programa de dezenas de linhas foi gerado a partir de uma especificação de milhares de linhas. Talvez essa "super-especificação" não seja um problema, já que ela também foi gerada por um modelo de IA a partir de um requerimento humano. Pode estar cedo para tirar conclusões, os elementos deste novo paradigma ainda estão se estabelecendo, mas são tempos novos, sem dúvida.
P.S.: Eu estou aprendendo a usar a IA no meu trabalho e por isso tentei desenvolver um gerador automático de resenhas. As resenhas continuarão sendo feitas "manualmente", já que o site Castália sempre foi uma maneira de adicionar o hábito de escrever ao hábito da leitura. Mas confesso que o resultado está sendo surpreendente. Aliás, para quem se interessar, publiquei este projeto no meu site de portfolio: http://willy.dev.br