A frase do poeta romano Juvenal "Mens sana in corpore sano" (Mente sã em um corpo são) originalmente não era uma frase de incentivo à prática de exercícios físicos, mas uma reflexão que defendia que a verdadeira virtude estava em ter saúde física e mental para enfrentar as adversidades da vida sem medo da morte e sem se render a desejos puramente materiais. Com o passar dos séculos, a citação foi desmembrada de seu contexto filosófico e passou a ser usada para promover a ligação entre a atividade física e o desenvolvimento intelectual. O Barão Pierre de Coubertin cunhou uma outra frase dizendo "Mens fervida in corpore lacertoso" (Mente ardente em um corpo em treinamento) que adiciona à ataraxia estóica do poeta romano a paixão, o fervor, o entusiasmo e uma vontade inabalável de vencer e se superar. Para Coubertin, a saúde passiva de Juvenal era insuficiente para o atleta; o esporte exigia paixão (na mente) e força física (no corpo). As duas frases são como os pilares de uma saúde integral e holística: não é possível cuidar da mente ignorando o corpo, e vice-versa. Não é difícil ouvir que a prática de exercícios físicos é fundamental para manter um corpo são e saudável, e não é incomum termos que relatar aos nossos médicos quais atividades físicas estamos fazendo e com qual regularidade. Mas e a mente sã e ardente? O que estamos fazendo para promover o outro elemento das duas frases?
Sempre ouvimos que precisamos fazer ginástica, que precisamos praticar esportes, que as atividades físicas são fundamentais para a manutenção da saúde. Não há como negar essas afirmações, mas porque ninguém se preocupa em aconselhar também uma vida que contemple o morador desse corpo que procuramos manter saudável? Uma saúde integral precisa se preocupar com os dois elementos da equação, a mente e o corpo. A única alimentação que provemos para a dimensão mental e psíquica é uma educação acadêmica, quando muito, e mesmo assim com um tempero massificado e embutindo a nossa capacidade de investigação e reflexão. Mas será que existe uma saída? Um remédio?
A literatura é a ginástica da mente.
Uma vida literária, ou seja, uma rotina de contato com as grandes obras literárias da humanidade pode suprir essa lacuna do cuidado que deveríamos ter com as nossas dimensões mais sutis. A leitura é um exercício que treina e estimula a mente, expande o conhecimento, enriquece o vocabulário, aperfeiçoa o pensamento analítico, estimula a cognição, treina o foco e a concentração e acaba gerando a redução do stress. A literatura é a ginástica da mente. É senso comum ouvir que precisamos exercitar os nossos músculos, evitar a perda de massa magra, expandir a nossa capacidade aeróbica, etc., mas ninguém se preocupa com a inanição da nossa mente devido a leitura média de menos de quatro livros por ano (3.96 segundo o Instituo Pró Livro na pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil").
Muitas são as razões dadas para explicar essa realidade: as pessoas só querem gratificação instantânea, que é difícil concorrer com a atenção dada a outros dispositivos eletrônicos que seriam mais atraentes que um livro, a falta de tempo devido ao ritmo de vida acelerado ou a menção de traumas causados por um sistema educacional que nunca se preocupou em despertar a atração dos alunos pelos livros. Não tiro a razão de todos esses pontos, mas da mesma forma que começamos com exercícios físicos leves o nosso treinamento, precisamos criar pequenos momentos de valorização e de conexão com os livros. Eles são ferramentas de conexão com o mundo e consigo próprio. Não é um culto ao livro, mas a concessão a si mesmo de um tempo rigorosamente individual e misteriosamente universal. Vocês está a sós e ao mesmo tempo tem a companhia de todo o universo.